Sintomas como dor para evacuar, cólicas, prisão de ventre ou diarreia podem indicar problemas digestivos comuns. Quando eles pioram na época da menstruação, no entanto, um alerta se acende: a possibilidade de ser um quadro de endometriose intestinal.
Entenda abaixo como a endometriose chega ao intestino, quais são os sinais que merecem atenção, como fazemos o diagnóstico e quais são as opções de tratamento:
A endometriose é uma doença inflamatória crônica na qual um tecido semelhante ao endométrio, que é o tecido que recobre superficialmente o interior do útero, cresce fora da cavidade uterina. Esse tecido responde aos estímulos hormonais do ciclo menstrual, espessando, descamando e sangrando. Porém, por não conseguir ser expelido para fora do corpo, ele gera uma reação inflamatória local, fazendo com que surjam lesões e aderências entre os órgãos, ocasionando então os sintomas.
A endometriose pode ser classificada em:
Então, quando esse tecido acomete o intestino, temos a endometriose no intestino ou endometriose colorretal. O que possibilita esse crescimento anormal de endométrio fora do útero é a proximidade entre o aparelho reprodutor feminino e o intestino. Nesse contexto, o sigmoide e o reto concentram a maior parte dos casos – e, quando os focos da doença estão nessas regiões, a conhecemos como endometriose no sigmoide ou endometriose no reto.
Um ponto muito particular da endometriose intestinal é o quanto os sintomas se confundem com os de outras condições. Isso porque os sintomas da doença parecem puramente digestivos e, muitas vezes, o fato deles piorarem durante o período menstrual passa despercebido.
Porém, o surgimento de sintomas ou a piora deles, relacionados ao ciclo menstrual, é muito sugestivo de que possa haver endometriose com acometimento intestinal. Os principais sintomas da endometriose intestinal incluem:
Quando falamos nesses sintomas, é preciso fazer um alerta importante: a intensidade deles nem sempre reflete o tamanho dos focos de endometriose. Isso porque é possível ter focos pequenos e sintomas intensos, assim como focos grandes e sintomas leves.
Veja no vídeo abaixo mais detalhes sobre a doença e seus sintomas:
Confundir endometriose e intestino irritável é algo comum e delicado. Isso porque as condições têm sintomas parecidos – e há pacientes que, inclusive, têm as duas.
Para ajudar a diferenciar ambas as condições, um passo importante é perceber quando os sintomas começam ou pioram. Isso porque, em casos de intestino irritável, as queixas têm relação com alimentação e estresse, enquanto em casos de endometriose intestinal, os sintomas seguem o ciclo menstrual, iniciando ou piorando durante o período.
Como as duas condições podem coexistir, a investigação é essencial e deve ser realizada por um médico especializado.
O diagnóstico da doença começa pela anamnese. Assim, na consulta, saber relatar os sintomas e a relação deles com o ciclo menstrual é muito importante. Além disso, uma investigação ginecológica prévia é fundamental.
Na sequência, são realizados os exames complementares necessários, que ajudam a descartar ou confirmar o quadro, além de mostrar o local de acometimento e a extensão das lesões. Nesse contexto, os principais exames são:
O ultrassom para endometriose (ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal) é um dos principais exames para investigar endometriose. Diferentemente do transvaginal comum, ele envolve o uso de laxantes durante o preparo, de forma a melhorar a visualização das paredes do intestino.
A ressonância magnética usa campo magnético para gerar imagens detalhadas, sem o uso de radiação. Aqui, para melhorar a visualização, o preparo com esvaziamento intestinal também é necessário.
Esse exame não é realizado de rotina em casos suspeitos de endometriose. Porém, quando há dúvida do diagnóstico ou incompatibilidade entre sintomas e achados de exames anteriores, podemos utilizar esse recurso. Muitas vezes é usado também como planejamento cirúrgico, fazendo um “mapa” das lesões. Sendo assim, ela não substitui a ultrassonografia, apenas a complementa.
A colonoscopia não é um exame realizado de rotina em casos de suspeita de endometriose. Porém, quando há um diagnóstico confirmado de endometriose com acometimento intestinal, ela pode ser realizado para planejamento cirúrgico, para avaliar a profundidade da invasão das lesões na parede do intestino, bem como avaliar a presença de possíveis complicações, como estreitamentos (estenoses).
Ela pode ser útil também para excluir outras doenças, investigar em casos de sangramento nas fezes ou para realização de biópsias.
Receber o diagnóstico de endometriose intestinal não significa que a paciente precisa, necessariamente, de cirurgia. Isso porque o tratamento da doença é individualizado devido a vários fatores, como os sintomas, a localização e a profundidade das lesões, entre outros.
Conheça abaixo os tratamentos mais comuns:
A grande maioria dos casos, responde muito bem ao tratamento clínico, que inclui medidas comportamentais e tratamento medicamentoso.
Nele, o objetivo é suprimir o ciclo menstrual, reduzindo a ação do estrogênio sobre os focos. Isso porque a doença depende do hormônio para crescer e inflamar – e, sem ele, a tendência é que os sintomas melhorem. Entre as opções reconhecidas em diretrizes sobre a doença estão as pílulas anticoncepcionais combinadas, as pílulas de progesterona isolada, o DIU hormonal e os análogos de GnRH.
Vale frisar que tão importante quanto ao tratamento medicamentoso, são as mudanças comportamentais, que incluem: perda de peso, prática de atividade física, melhora no padrão alimentar e realização de fisioterapia pélvica.
O tratamento clínico não elimina as lesões que já existem, apenas controla o impacto dos sintomas no bem-estar geral. Além disso, é muito comum os sintomas retornarem após a suspensão do uso das medicações, e é por isso que, quando o controle clínico falha, a discussão sobre a cirurgia pode aparecer.
A cirurgia de endometriose tem indicação quando o tratamento clínico não controla os sintomas, impactando demais na qualidade de vida da paciente. Além disso, ela também é indicada quando as lesões obstruem ou comprometem o funcionamento do intestino ou em casos de infertilidade.
Aqui, é importante informar que a decisão pelo procedimento não costumar vir de um profissional só. Isso porque a endometriose intestinal pede o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar: enquanto o ginecologista cuida dos focos pélvicos e da administração de medicamentos, o cirurgião do aparelho gástrico trata e acompanha as lesões do intestino.
A técnica a se utilizar depende da profundidade, do tamanho e da localização das lesões, e o objetivo do procedimento é sempre remover todos os focos, preservando a função intestinal. Na prática, existem três abordagens principais, quase sempre realizadas a partir de videolaparoscopia ou cirurgia robótica:
Sendo assim, a ressecção intestinal na endometriose não é uma regra, mas sim uma entre diversas possibilidades. A escolha por esse caminho acontece somente quando o procedimento realmente tem potencial de trazer benefícios à paciente.
Quando a investigação sugere que a endometriose atingiu o intestino, o ideal é que o cirurgião do aparelho digestivo faça parte da equipe multidisciplinar. Isso porque ele é o especialista que avalia os sintomas intestinais, a extensão das lesões no trato digestivo e suas possíveis complicações. Além disso, em caso de necessidade de cirurgia com ressecção intestinal, ele também é responsável por definir a técnica cirúrgica mais apropriada para cada caso – tudo lado a lado com o ginecologista.
Sendo assim, se você percebe que seus sintomas intestinais começam ou pioram de acordo com o momento do ciclo menstrual e está próxima de Moema, em São Paulo, posso avaliar seu caso e conduzi-lo em conjunto com a equipe de ginecologia.
Quero lembrar também que nunca devemos normalizar dores intensas e nem alterações intestinais apenas pela ligação com a menstruação. Agende sua consulta!
Formado pela Santa Casa de São Paulo, o Dr. Pedro Canzian é cirurgião do aparelho digestivo com especialização em Cirurgia do Aparelho Digestivo pela mesma instituição. Atua no tratamento de condições como hérnias, refluxo, doenças da vesícula e da parede intestinal, incluindo a endometriose com acometimento do trato digestivo.
Como cirurgião digestivo em Moema, São Paulo, integra equipes multidisciplinares para o tratamento da endometriose ao lado de ginecologistas, com ênfase em cirurgia minimamente invasiva. O objetivo, desde o diagnóstico até o pós-operatório, é controlar a doença preservando a função intestinal e devolvendo qualidade de vida.
Os sintomas mais comuns da endometriose intestinal incluem dor para evacuar durante a menstruação, dor abdominal e distensão que pioram com o ciclo, além de alternância entre constipação e diarreia. O sinal mais característico da doença é a ciclicidade, pois os sintomas começam ou pioram com a chegada da menstruação.
Nem todo caso precisa de cirurgia. A grande maioria das pacientes consegue um bom controle dos sintomas com o tratamento clínico. Assim, a cirurgia entra apenas quando o tratamento clínico não resolve os sintomas, quando a doença causa obstrução intestinal ou diante de dor intensa e sangramento. A decisão é individual e considera também o desejo de ter filhos.
Isso é necessário apenas em uma parcela dos casos. Quando as lesões são mais superficiais podem ser tratadas por raspagem, sem remoção de parte do órgão. Já a retirada de um disco ou segmento, se reserva a lesões maiores, múltiplas ou muito profundas, em casos nos quais essa é a forma mais segura de removê-las.