Endometriose intestinal: o que é, sinais e tratamentos

Sintomas como dor para evacuar, cólicas, prisão de ventre ou diarreia podem indicar problemas digestivos comuns. Quando eles pioram na época da menstruação, no entanto, um alerta se acende: a possibilidade de ser um quadro de endometriose intestinal.

Entenda abaixo como a endometriose chega ao intestino, quais são os sinais que merecem atenção, como fazemos o diagnóstico e quais são as opções de tratamento:

Endometriose intestinal: como acontece, sinais e mais

A endometriose é uma doença inflamatória crônica na qual um tecido semelhante ao endométrio, que é o tecido que recobre superficialmente o interior do útero, cresce fora da cavidade uterina. Esse tecido responde aos estímulos hormonais do ciclo menstrual, espessando, descamando e sangrando. Porém, por não conseguir ser expelido para fora do corpo, ele gera uma reação inflamatória local, fazendo com que surjam lesões e aderências entre os órgãos, ocasionando então os sintomas.

A endometriose pode ser classificada em:

  • Superficial: restrita à superfície do peritônio pélvico e à camada externa dos ovários, com invasão menor de 5mm da espessura dos órgão acometidos;
  • Profunda: quando as lesões penetram mais de 5 mm nos tecidos ou órgãos afetados e chegam a acometer outros órgãos ou regiões como intestino, bexiga, ligamentos uterinos, ureteres e região retrocervical.

Então, quando esse tecido acomete o intestino, temos a endometriose no intestino ou endometriose colorretal. O que possibilita esse crescimento anormal de endométrio fora do útero é a proximidade entre o aparelho reprodutor feminino e o intestino. Nesse contexto, o sigmoide e o reto concentram a maior parte dos casos – e, quando os focos da doença estão nessas regiões, a conhecemos como endometriose no sigmoide ou endometriose no reto.

Sintomas de endometriose intestinal

Um ponto muito particular da endometriose intestinal é o quanto os sintomas se confundem com os de outras condições. Isso porque os sintomas da doença parecem puramente digestivos e, muitas vezes, o fato deles piorarem durante o período menstrual passa despercebido.

Porém, o surgimento de sintomas ou a piora deles, relacionados ao ciclo menstrual, é muito sugestivo de que possa haver endometriose com acometimento intestinal. Os principais sintomas da endometriose intestinal incluem:

  • Dor para evacuar durante a menstruação (disquesia), muitas vezes descrita como pressão ou queimação no reto;
  • Dor abdominal na menstruação;
  • Distensão abdominal intensa antes ou durante o fluxo;
  • Intestino preso (constipação e endometriose caminham juntas em boa parte dos casos);
  • Diarreia na menstruação;
  • Sangramento nas fezes durante o período menstrual;
  • Dor pélvica persistente, que às vezes ocorre fora dos dias da menstruação.

Quando falamos nesses sintomas, é preciso fazer um alerta importante: a intensidade deles nem sempre reflete o tamanho dos focos de endometriose. Isso porque é possível ter focos pequenos e sintomas intensos, assim como focos grandes e sintomas leves.

Veja no vídeo abaixo mais detalhes sobre a doença e seus sintomas:

Endometriose intestinal ou síndrome do intestino irritável?

Confundir endometriose e intestino irritável é algo comum e delicado. Isso porque as condições têm sintomas parecidos – e há pacientes que, inclusive, têm as duas.

Para ajudar a diferenciar ambas as condições, um passo importante é perceber quando os sintomas começam ou pioram. Isso porque, em casos de intestino irritável, as queixas têm relação com alimentação e estresse, enquanto em casos de endometriose intestinal, os sintomas seguem o ciclo menstrual, iniciando ou piorando durante o período.

Como as duas condições podem coexistir, a investigação é essencial e deve ser realizada por um médico especializado.

Diagnóstico de endometriose intestinal

O diagnóstico da doença começa pela anamnese. Assim, na consulta, saber relatar os sintomas e a relação deles com o ciclo menstrual é muito importante. Além disso, uma investigação ginecológica prévia é fundamental.

Na sequência, são realizados os exames complementares necessários, que ajudam a descartar ou confirmar o quadro, além de mostrar o local de acometimento e a extensão das lesões. Nesse contexto, os principais exames são:

Ultrassom transvaginal com preparo intestinal

O ultrassom para endometriose (ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal) é um dos principais exames para investigar endometriose. Diferentemente do transvaginal comum, ele envolve o uso de laxantes durante o preparo, de forma a melhorar a visualização das paredes do intestino.

Ressonância magnética com preparo intestinal

A ressonância magnética usa campo magnético para gerar imagens detalhadas, sem o uso de radiação. Aqui, para melhorar a visualização, o preparo com esvaziamento intestinal também é necessário.

Esse exame não é realizado de rotina em casos suspeitos de endometriose. Porém, quando há dúvida do diagnóstico ou incompatibilidade entre sintomas e achados de exames anteriores, podemos utilizar esse recurso. Muitas vezes é usado também como planejamento cirúrgico, fazendo um “mapa” das lesões. Sendo assim, ela não substitui a ultrassonografia, apenas a complementa.

Colonoscopia

A colonoscopia não é um exame realizado de rotina em casos de suspeita de endometriose. Porém, quando há um diagnóstico confirmado de endometriose com acometimento intestinal, ela pode ser realizado para planejamento cirúrgico, para avaliar a profundidade da invasão das lesões na parede do intestino, bem como avaliar a presença de possíveis complicações, como estreitamentos (estenoses).

Ela pode ser útil também para excluir outras doenças, investigar em casos de sangramento nas fezes ou para realização de biópsias.

Tratamento da endometriose intestinal: do acompanhamento à cirurgia

Receber o diagnóstico de endometriose intestinal não significa que a paciente precisa, necessariamente, de cirurgia. Isso porque o tratamento da doença é individualizado devido a vários fatores, como os sintomas, a localização e a profundidade das lesões, entre outros.

Conheça abaixo os tratamentos mais comuns:

Tratamento clínico

A grande maioria dos casos, responde muito bem ao tratamento clínico, que inclui medidas comportamentais e tratamento medicamentoso.

Nele, o objetivo é suprimir o ciclo menstrual, reduzindo a ação do estrogênio sobre os focos. Isso porque a doença depende do hormônio para crescer e inflamar – e, sem ele, a tendência é que os sintomas melhorem. Entre as opções reconhecidas em diretrizes sobre a doença estão as pílulas anticoncepcionais combinadas, as pílulas de progesterona isolada, o DIU hormonal e os análogos de GnRH.

Vale frisar que tão importante quanto ao tratamento medicamentoso, são as mudanças comportamentais, que incluem: perda de peso, prática de atividade física, melhora no padrão alimentar e realização de fisioterapia pélvica.

O tratamento clínico não elimina as lesões que já existem, apenas controla o impacto dos sintomas no bem-estar geral. Além disso, é muito comum os sintomas retornarem após a suspensão do uso das medicações, e é por isso que, quando o controle clínico falha, a discussão sobre a cirurgia pode aparecer.

Cirurgia é sempre necessária?

A cirurgia de endometriose tem indicação quando o tratamento clínico não controla os sintomas, impactando demais na qualidade de vida da paciente. Além disso, ela também é indicada quando as lesões obstruem ou comprometem o funcionamento do intestino ou em casos de infertilidade.

Aqui, é importante informar que a decisão pelo procedimento não costumar vir de um profissional só. Isso porque a endometriose intestinal pede o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar: enquanto o ginecologista cuida dos focos pélvicos e da administração de medicamentos, o cirurgião do aparelho gástrico trata e acompanha as lesões do intestino.

Como a cirurgia acontece

A técnica a se utilizar depende da profundidade, do tamanho e da localização das lesões, e o objetivo do procedimento é sempre remover todos os focos, preservando a função intestinal. Na prática, existem três abordagens principais, quase sempre realizadas a partir de videolaparoscopia ou cirurgia robótica:

  • Raspagem (shaving): retira os focos da superfície da parede intestinal sem abrir ou remover partes do órgão, com indicação para lesões superficiais;
  • Ressecção discoide: remove um pequeno disco da parede do intestino, retirando a lesão por inteiro, mas sem grandes cortes. É uma indicação, em geral, para lesões de até 3 centímetros;
  • Ressecção segmentar: quando lesões são maiores, múltiplas ou muito profundas, pode ser necessário retirar parte do intestino, reconectando as extremidades. Esse procedimento se reserva a casos mais avançados da doença.

Sendo assim, a ressecção intestinal na endometriose não é uma regra, mas sim uma entre diversas possibilidades. A escolha por esse caminho acontece somente quando o procedimento realmente tem potencial de trazer benefícios à paciente.

O papel do cirurgião do aparelho digestivo

Quando a investigação sugere que a endometriose atingiu o intestino, o ideal é que o cirurgião do aparelho digestivo faça parte da equipe multidisciplinar. Isso porque ele é o especialista que avalia os sintomas intestinais, a extensão das lesões no trato digestivo e suas possíveis complicações. Além disso, em caso de necessidade de cirurgia com ressecção intestinal, ele também é responsável por definir a técnica cirúrgica mais apropriada para cada caso – tudo lado a lado com o ginecologista.

Sendo assim, se você percebe que seus sintomas intestinais começam ou pioram de acordo com o momento do ciclo menstrual e está próxima de Moema, em São Paulo, posso avaliar seu caso e conduzi-lo em conjunto com a equipe de ginecologia.

Quero lembrar também que nunca devemos normalizar dores intensas e nem alterações intestinais apenas pela ligação com a menstruação. Agende sua consulta!

Dr. Pedro Canzian: cirurgião do aparelho digestivo em São Paulo

Formado pela Santa Casa de São Paulo, o Dr. Pedro Canzian é cirurgião do aparelho digestivo com especialização em Cirurgia do Aparelho Digestivo pela mesma instituição. Atua no tratamento de condições como hérnias, refluxo, doenças da vesícula e da parede intestinal, incluindo a endometriose com acometimento do trato digestivo.

Como cirurgião digestivo em Moema, São Paulo, integra equipes multidisciplinares para o tratamento da endometriose ao lado de ginecologistas, com ênfase em cirurgia minimamente invasiva. O objetivo, desde o diagnóstico até o pós-operatório, é controlar a doença preservando a função intestinal e devolvendo qualidade de vida.

Mais sobre endometriose intestinal

Os sintomas mais comuns da endometriose intestinal incluem dor para evacuar durante a menstruação, dor abdominal e distensão que pioram com o ciclo, além de alternância entre constipação e diarreia. O sinal mais característico da doença é a ciclicidade, pois os sintomas começam ou pioram com a chegada da menstruação.

Nem todo caso precisa de cirurgia. A grande maioria das pacientes consegue um bom controle dos sintomas com o tratamento clínico. Assim, a cirurgia entra apenas quando o tratamento clínico não resolve os sintomas, quando a doença causa obstrução intestinal ou diante de dor intensa e sangramento. A decisão é individual e considera também o desejo de ter filhos.

Isso é necessário apenas em uma parcela dos casos. Quando as lesões são mais superficiais podem ser tratadas por raspagem, sem remoção de parte do órgão. Já a retirada de um disco ou segmento, se reserva a lesões maiores, múltiplas ou muito profundas, em casos nos quais essa é a forma mais segura de removê-las.

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