Disfagia é a dificuldade de engolir alimentos e bebidas. Quando ela vem acompanhada da sensação de comida parada no esôfago, regurgitação de refeições não digeridas, engasgos, dor retroesternal e queimação no esôfago, não devemos ignorar esses sintomas. Isso porque elas podem indicar acalasia.
Entenda abaixo o que é essa doença do esôfago que atrapalha a passagem dos alimentos, quais sintomas levantam a suspeita, como é o diagnóstico e quais as opções de tratamento disponíveis atualmente:
A acalasia é um distúrbio de motilidade do esôfago, ou seja, um problema no funcionamento dos músculos desse órgão, responsável por “transportar” a comida até o estômago.
Na passagem do esôfago para o estômago, encontramos uma válvula muscular chamada de esfíncter esofágico inferior. Essa válvula é responsável por evitar que o conteúdo ácido do estômago volte para o esôfago, portanto, fica fechada e, quando comemos, precisa relaxar e abrir, para deixar o alimento entrar no estômago.
Nos casos de acalasia esofágica, o relaxamento desse esfíncter não ocorre. Associadas a isso, as contrações do esôfago que ajudam a impulsionar o bolo alimentar para baixo deixam de existir. O resultado é o acúmulo de comida e de líquido no esôfago, levando à sua dilatação, conhecida como megaesôfago.
No Brasil, uma causa importante de acalasia é a doença de Chagas, justamente porque essa doença acomete os plexos nervosos esofágicos, levando as alterações nas contrações e no esfíncter esofágico inferior. Porém, na maioria dos casos, as causas que levaram a acalasia não podem ser identificadas (Acalasia primária ou idiopática). Existem ainda doenças reumatológicas que podem levar a essa condição, como por exemplo a esclerodermia e a dermatomiosite.
Um dos principais sintomas da acalasia é a dificuldade para engolir sólidos e líquidos (disfagia). Esse sintoma, inclusive, costuma aparecer desde o início do quadro e costuma ser progressivo, evoluindo desde a dificuldade para ingerir alimentos sólidos e pastosos, em casos mais avançados, até líquidos. Além da disfagia, o quadro de sintomas inclui:
Nesse tópico, vale frisar que muita gente convive com a sensação de comida parada no esôfago e considera isso algo corriqueiro ou que não merece investigação. O sintoma é, no entanto, algo que merece ser discutido com um médico, justamente para entender as causas e tratá-las o quanto antes.
Alguns sintomas da acalasia, como digestão prejudicada e regurgitação, podem aparecer em outros quadros de saúde. Essas condições, porém, têm diferenças claras que ajudam a não confundi-las.
É comum que pacientes interpretem esse conjunto de sintomas como um caso de refluxo gastroesofágico, por exemplo. No entanto, enquanto o refluxo tem a queimação como sintoma central e não costuma trazer dificuldade para engolir, a acalasia tem essa dificuldade como principal sintoma, especialmente acompanhada de regurgitação de alimento não digerido.
Estreitamentos (estenoses) e tumores do esôfago, assim como a acalasia, também tem como principal sintoma a disfagia. A diferença está na velocidade de progressão e intensidade dos sintomas, que em casos de tumores costumas ser mais rápida e associada a perda de peso importante, com quadros graves de desnutrição.
Sendo assim, seja qual for a suspeita pessoal do paciente, qualquer um desses sintomas merece a investigação por parte de um especialista.
Como todo diagnóstico médico, começa com uma boa anamnese, onde avaliamos os sintomas que o paciente apresenta e quanto tempo faz que o quadro começou. Quando existe a suspeita de acalasia, o exame que confirma o quadro é a manometria esofágica – mas outros também devem aparecer na investigação. Conheça cada um deles:
A manometria esofágica é o exame padrão-ouro para o diagnóstico de acalasia. Nele, o especialista introduz um cateter fino pelo nariz do paciente, que vai até o final do esôfago e serve para medir a pressão e as contrações do órgão, conforme o paciente engole, revelando então duas marcas importantes da doença: o esfíncter que não relaxa (hipertonia do esfíncter) e as contrações inexistentes (aperistalse).
A endoscopia digestiva alta não confirma a acalasia, mas costuma ser o primeiro exame realizado em casos de disfagia. Ela serve para avaliar e descartar outras condições, como tumores e estreitamentos, e também pode ajudar a suspeitar de um alargamento do esôfago (megaesôfago) e de uma hipertonia do esfíncter esofágico inferior. Nela, um tubo fino e flexível com uma câmera na ponta é usado para alcançar o esôfago e o estômago do paciente pela boca – algo feito sob sedação.
O esofagograma é uma série de radiografias do esôfago feita após a ingestão de contraste. As imagens mostram como o contraste desce e onde ele encontra resistência, algo que pode ser útil em quadros de acalasia, pois a doença costuma ter um achado bem característico: esôfago dilatado que se afunila na base.
A manometria esofágica não apenas define o diagnóstico como também define a classificação da doença. Isso é importante, pois, de acordo com a classificação, com os sintomas e com o status clínico do paciente, avaliamos qual o tratamento mais adequado.
De forma geral, as possibilidades terapêuticas giram em torno da cirurgia minimamente invasiva — e, no vídeo abaixo, explico mais sobre como cirurgia digestiva pode melhorar a qualidade de vida:
Vale reforçar que não existe uma conduta única para todos os casos, mesmo que eles sejam do mesmo subtipo. A melhor escolha é sempre aquela feita de maneira individual, considerando não apenas as características da doença, mas fatores como idade e estado geral do paciente.
Entre as linhas terapêuticas disponíveis atualmente, é possível citar:
A dilatação endoscópica é um procedimento realizado pelo médico endoscopista. Nele, o especialista localiza o esfíncter esofágico inferior e insufla um balão que realiza a dilatação por via endoscópica. Nesse processo, a pressão rompe parte das fibras musculares dessa válvula, facilitando a passagem do alimento.
Se trata de uma opção menos invasiva, feita sob sedação, e que não é definitiva, pois após alguns meses os sintomas podem retornar e ser necessário repetir o procedimento.
Costuma ser utilizada em casos menos avançados ou em pacientes que estão se preparando para cirurgia, para melhora dos sintomas e melhor nutrição pré operatória.
A POEM também é uma técnica endoscópica. Porém, nela, em vez do uso de um balão e da realização de dilatação do esfíncter esofágico inferior, é realizado o corte das fibras musculares do esfíncter por dentro, sem necessidade de cirurgia.
Ela costuma apresentar bons resultados e é um procedimento minimamente invasivo. No entanto, em alguns casos, o paciente pode evoluir com sintomas de refluxo como azia.
A miotomia de Heller é realizada por meio de um procedimento cirúrgico. Nela, o cirurgião secciona as fibras musculares do esfíncter esofágico inferior e, para evitar sintomas de refluxo no futuro, confecciona uma válvula antirrefluxo com um pedaço do estômago (fundoplicatura parcial). Tudo isso ajuda a fazer com que o alimento desça melhor e ainda evita o refluxo após o procedimento.
Hoje, esse procedimento ocorre por videolaparoscopia ou por via robótica – ou seja, com pequenas incisões, menos dor e recuperação que tende a ser mais tranquila.
Existem ainda outros procedimentos cirúrgicos (como, por exemplo, a cirurgia de Serra Dória) que podem ser realizados no tratamento da acalasia, porém ficam reservados para os casos mais avançados e graves, que podem exigir até uma esofagectomia (retirada do esôfago).
Para pacientes que não tem condições clínicas para um tratamento invasivo, o tratamento com toxina botulínica ou com medicamentos (como nitratos ou bloqueadores do canal de cálcio), ajudam na melhora temporária dos sintomas.
A injeção da toxina botulínica no esfíncter ou o uso dessas medicações, promove o relaxamento do músculo do esfíncter e melhora a deglutição.
Quando a dificuldade para engolir persiste, especialmente se ela vem acompanhada de regurgitação, engasgos e perda de peso, é hora de buscar um especialista. Isso porque, dependendo da causa, esse quadro pode não melhorar espontaneamente, tendendo à piora.
Se você percebe uma dificuldade para engolir que não passa, com regurgitação ou perda de peso, não deixe de marcar sua consulta! Juntos, podemos analisar o caso com cautela e entender o caminho mais seguro.
Formado pela Santa Casa de São Paulo, o Dr. Pedro Canzian é cirurgião do aparelho digestivo com aperfeiçoamento em Cirurgia do Esôfago e Estômago pela mesma instituição. Como especialista em esôfago, dedica-se ao diagnóstico e ao tratamento de doenças que afetam a deglutição e a motilidade do órgão, entre elas a acalasia.
Atuando como cirurgião digestivo em Moema, São Paulo, une a experiência em cirurgia minimamente invasiva a uma avaliação individualizada de cada caso. O objetivo, do diagnóstico ao tratamento, é escolher a técnica mais adequada para cada paciente e devolver a ele o conforto de se alimentar sem dor ou receio.
Os sintomas costumam começar pela dificuldade para engolir, primeiro com alimentos sólidos e, aos poucos, também com líquidos. Além disso, costumam acontecer também a sensação de alimento parado no peito, a regurgitação de comida não digerida e engasgos (especialmente à noite).
Não há um tratamento que reverta por completo a doença, porque a perda da função muscular do esôfago não é recuperável. Ainda assim, os tratamentos disponíveis costumam controlar muito bem os sintomas, aliviando a obstrução causada pelo esfíncter, devolvendo a capacidade de engolir e melhorando a qualidade de vida.
O tratamento varia de caso para caso, especialmente porque mesmo casos parecidos podem responder de forma diferente às abordagens. Entre as opções de tratamento, é possível citar dilatação pneumática, POEM, miotomia de Heller e aplicação de toxina botulínica no esfíncter – e a escolha por uma abordagem é feita em conjunto com o especialista.