Gastrite ou úlcera? Entenda a diferença, os sintomas e quando investigar

Dor ou queimação no estômago são sintomas muito comuns. Estima-se que até 20% da população mundial apresente esses sintomas, sem nunca ter investigado a causa, sendo que no Brasil essa porcentagem pode ser ainda maior, chegando a 40% da população.

Quando eles aparecem, muitas pessoas acreditam tratar-se de uma gastrite. No entanto, em alguns casos, o problema pode ser uma úlcera gástrica, uma condição mais profunda e que exige atenção especial.

Entender a diferença entre gastrite e úlcera é importante, pois o diagnóstico correto permite iniciar o tratamento adequado, aliviar os sintomas e evitar complicações potencialmente graves. Entre elas, vale destacar sangramentos e perfurações.

Entenda o que é cada condição, quais são seus sintomas, como é feito o diagnóstico e quando procurar avaliação especializada.

O que é gastrite?

A gastrite é uma inflamação da mucosa do estômago, camada que reveste internamente o órgão e apresenta inúmeras glândulas, que tem papel fundamental na digestão, absorção de nutrientes e proteção. Essa inflamação pode ser aguda, surgindo de forma repentina, ou crônica, quando se mantém por períodos prolongados.

Entre as principais causas da gastrite estão:

  • Infecção pela bactéria Helicobacter pylori (H. pylori)
  • Uso frequente de anti-inflamatórios
  • Consumo excessivo de álcool
  • Tabagismo
  • Estresse fisiológico intenso
  • Doenças autoimunes

Apesar de geralmente ser uma condição benigna, a gastrite não deve ser negligenciada. Algumas formas crônicas podem aumentar o risco de alterações na mucosa gástrica ao longo do tempo.

O que é úlcera gástrica?

A úlcera, chamada de úlcera péptica, é uma lesão mais profunda na parede do estômago ou no duodeno, primeira porção do intestino delgado. Enquanto a gastrite representa uma inflamação superficial, a úlcera corresponde a uma verdadeira ferida na mucosa digestiva.

As causas são semelhantes às da gastrite, ou seja:

  • Infecção por H. pylori
  • Uso prolongado de anti-inflamatórios
  • Tabagismo
  • Consumo excessivo de álcool
  • Algumas doenças raras que aumentam a produção de ácido

Por ser uma lesão mais profunda, a úlcera pode gerar sintomas mais intensos e apresentar maior risco de complicações.

Gastrite ou úlcera: quais são as diferenças?

Embora os sintomas possam ser semelhantes, existem diferenças importantes entre as duas condições. A gastrite corresponde à inflamação superficial da mucosa do estômago. Já a úlcera representa uma perda da integridade dessa mucosa, formando uma ferida mais profunda.

Em quadros de gastrite, os sintomas costumam ser mais inespecíficos. É comum que o paciente relate queimação, desconforto na parte superior do abdome, sensação de estômago cheio mesmo após pequenas refeições, náuseas e empachamento. Muitas vezes, esses sintomas surgem de forma gradual e podem variar de intensidade ao longo do tempo.

Já a úlcera tende a provocar sintomas mais intensos. A dor costuma ser mais persistente e pode estar relacionada aos períodos de jejum ou à alimentação. Em alguns casos, o paciente também apresenta náuseas, vômitos, anemia, perda de peso e até sinais de sangramento digestivo, o que indica uma condição potencialmente mais grave.

É importante destacar que nem sempre é possível diferenciar gastrite e úlcera apenas pelos sintomas. Por isso, a investigação adequada é fundamental. A avaliação médica associada à endoscopia digestiva alta permite visualizar diretamente a mucosa do estômago e identificar com precisão a presença de inflamação, feridas, sangramentos ou outras alterações que expliquem os sintomas.

O que é a bactéria H. pylori?

A Helicobacter pylori é uma bactéria capaz de sobreviver no ambiente ácido do estômago, algo incomum para a maioria dos microrganismos. Ela não faz parte da microbiota gástrica normal e sua presença está associada ao desenvolvimento de sintomas dispépticos (dor ou queimação no estômago, azia).

Nem todas as pessoas infectadas apresentam sintomas, muitas convivem com a bactéria por anos sem perceber. No entanto, a infecção provoca uma inflamação persistente da mucosa gástrica, favorecendo o aparecimento de lesões e aumentando o risco de complicações.

Além de estar intimamente relacionada ao surgimento dos sintomas dispépticos, ela também pode ser a principal causa de gastrite crônica e de grande parte das úlceras. Já infecção prolongada por H. pylori está associada ao aumento do risco de câncer de estômago e de alguns tipos específicos de linfoma gástrico.

Quando identificamos a bactéria, indicamos um tratamento específico chamado erradicação do H. pylori, que combina antibióticos e medicamentos para reduzir a produção de ácido gástrico. Após o tratamento, é necessário repetir a endoscopia para confirmar que a bactéria foi, de fato, eliminada.

Quando a gastrite pode evoluir para úlcera?

Nem toda gastrite evolui para úlcera. Na maioria dos casos, quando diagnosticada e tratada adequadamente, a inflamação pode ser controlada sem maiores consequências.

O problema surge quando a agressão à mucosa do estômago persiste por longos períodos. A presença contínua do H. pylori, o uso frequente de anti-inflamatórios, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool podem enfraquecer progressivamente os mecanismos naturais de proteção do estômago. Com isso, a inflamação superficial pode evoluir para uma lesão mais profunda, formando uma úlcera.

Esse processo costuma ocorrer de forma gradual e silenciosa. Por isso, pacientes com sintomas persistentes não devem simplesmente conviver com o desconforto. Identificar a causa da gastrite e tratá-la precocemente reduz significativamente o risco de evolução para úlcera e suas complicações.

Diagnóstico da gastrite e da úlcera

O principal exame para investigar gastrite e úlcera é a endoscopia digestiva alta.

Durante o procedimento, uma câmera é introduzida pela boca para visualizar diretamente o esôfago, o estômago e o duodeno.

A endoscopia permite identificar áreas de inflamação, confirmar a presença de úlceras, avaliar possíveis sangramentos e detectar alterações suspeitas que exijam investigação adicional. Além disso, durante o exame podem ser realizadas biópsias, tanto para pesquisar a presença da bactéria H. pylori quanto para analisar alterações da mucosa que necessitem de avaliação microscópica.

Além da endoscopia, exames laboratoriais podem ser solicitados para investigar anemia ou outras alterações associadas.

Tratamento da gastrite

O tratamento depende da causa identificada.

Quando há infecção por H. pylori, o objetivo principal é eliminar a bactéria. Já nos casos relacionados ao uso de medicamentos, tabagismo ou outros fatores irritativos, o tratamento envolve corrigir ou eliminar esses fatores.

Readequação alimentar, perda de peso e ajustes de hábitos de vida são fundamentais e contribuem para uma recuperação mais rápida e duradoura. Além disso, quando necessário, podemos utilizar medicamentos capazes de reduzir a produção de ácido no estômago, favorecendo a cicatrização da mucosa e o alívio dos sintomas.

A resposta costuma ser bastante satisfatória quando a causa é tratada corretamente.

Tratamento da úlcera

O tratamento da úlcera também depende da sua causa.

O principal objetivo é permitir que a lesão cicatrize e evitar novas agressões à mucosa do estômago ou do duodeno. Para isso, utilizamos medicamentos que reduzem a produção de ácido gástrico, tratamos a infecção por H. pylori quando presente e orientamos a suspensão de medicamentos que possam estar contribuindo para o surgimento da lesão.

Em algumas situações, pode ser necessário realizar acompanhamento endoscópico para confirmar a cicatrização completa da úlcera.

A maioria das úlceras cicatriza adequadamente com tratamento clínico. Entretanto, em situações mais graves, podem surgir complicações que exigem internação ou até cirurgia.

Complicações da gastrite e da úlcera

Quando não tratadas adequadamente, as úlceras podem evoluir com complicações potencialmente graves.

A mais comum é o sangramento digestivo, que pode se manifestar de diversas formas:

  • Anemia;
  • Fezes escurecidas;
  • Vômitos com sangue.

Nessa situação o paciente necessita de internação hospitalar de urgência, para investigação e tratamento.

Outra complicação importante é a perfuração, situação em que a úlcera atravessa toda a parede do estômago ou do duodeno. Trata-se de uma emergência cirúrgica que costuma causar dor abdominal intensa e súbita e que se não tratada prontamente, pode levar a graves quadros de infecção e sepse.

Além disso, processos inflamatórios crônicos podem provocar o estreitamento (estenose) da passagem dos alimentos, gerando dificuldade do esvaziamento gástrico e em casos extremos, obstrução digestiva.

Por isso, não é recomendável ignorar sintomas persistentes.

O papel do cirurgião do aparelho digestivo

Embora a maior parte dos casos de gastrite e úlcera seja tratada clinicamente, o cirurgião do aparelho digestivo possui papel importante na investigação e condução dos casos mais complexos.

A avaliação especializada permite confirmar o diagnóstico, identificar fatores de risco, solicitar os exames mais adequados e definir um plano de tratamento individualizado. Além disso, o especialista está preparado para reconhecer situações que exigem acompanhamento mais próximo ou intervenção cirúrgica, garantindo mais segurança e melhores resultados para o paciente.

Diagnóstico precoce faz diferença

Muitas pessoas convivem durante meses ou anos com sintomas digestivos acreditando que se trata apenas de uma gastrite simples. Entretanto, dores persistentes, perda de peso, anemia ou sangramento digestivo merecem investigação adequada.

Quanto mais cedo identificamos a causa dos sintomas, melhores são as chances de controle da doença e menores são os riscos de complicações. Se você apresenta sintomas recorrentes relacionados ao estômago, uma avaliação especializada pode ajudar a esclarecer o diagnóstico e definir o melhor tratamento.

Dr. Pedro Canzian - Cirurgião do aparelho digestivo em Moema, SP

O Dr. Pedro Canzian é cirurgião do aparelho digestivo em São Paulo, com formação pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, residência em Cirurgia Geral e Cirurgia do Aparelho Digestivo pela Santa Casa e Fellowship em Cirurgia do Esôfago e Estômago. Atua no diagnóstico e tratamento de doenças do estômago, esôfago, hérnias, vesícula biliar, endometriose intestinal e oncologia digestiva. Atende pacientes em Moema, com avaliação individualizada e foco em medicina baseada em evidências.

Perguntas frequentes

A gastrite é uma inflamação da mucosa do estômago. Já a úlcera é uma ferida mais profunda que se desenvolve nessa mucosa. Embora possam causar sintomas semelhantes, a úlcera apresenta maior risco de sangramento e outras complicações.

Pode. Quando fatores como infecção por H. pylori, uso de anti-inflamatórios ou tabagismo permanecem ativos por muito tempo, a inflamação pode evoluir para uma lesão mais profunda, formando uma úlcera.

A endoscopia costuma ser indicada quando existem sintomas persistentes, sinais de alerta como anemia, perda de peso, sangramento digestivo, dificuldade para engolir ou quando há necessidade de investigar gastrite, úlceras e outras doenças do trato digestivo superior.

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